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Friday, December 5, 2008

Portugal no divã

Parece que desde que comecei a pensar no assunto, que não foi há tanto tempo, a matéria de reflexão não pára de crescer. Hoje lia um artigo do Lourenço Viegas, crítico gastronómico, e ele dizia “o problema é conseguir que um grupo de portugueses reconheça que lhe aconteceu qualquer coisa boa num ano e, ainda por cima, agradeça publicamente por isso. Muitos preferiam ser colonoscopizados na mesa da sala de jantar a mostrarem-se gratos em frente daquela gente toda por alguma coisa”. Acho que acertou em cheio.

Espero que os psicólogos me perdoem mas vou sentar Portugal no divã e tentar traçar o quadro patológico. Começo por eliminar o ruído, os tiques comuns a todos os países que eu conheço, apesar de nós (e os outros) dizermos “Isto só aqui”. E o ruído inclui dizer mal dos políticos, não importa a sua valia ou o que possam ter feito, pensar que somos os maiores antes do Mundial e os piores depois de perder, gostar de espreitar pela fechadura da porta do vizinho, olhar para os resultados de curto prazo mas dizer que o importante é o longo prazo. Estarei com certeza a esquecer-me de outros mas penso que estes são os importantes.

Então o que resta? Posso resumir o problema a quatro manifestações primárias. Decidi eliminar sintomas típicos da vasta cultura latina e que são comuns a outras nações. E ao mais puro estilo consultor, penso que estas quatro manifestações cumprem a regra MECE (mutuamente exclusivas e colectivamente exaustivas).

Classista. No fundo, toda a gente gostava de estar numa monarquia onde, naturalmente, deteria algum título nobiliárquico. Como estamos numa república vingamo-nos nos Dr, Eng, Arq e afins para, obviamente, espezinhar aqueles que são simples Sr. E sempre que tem oportunidade, o português lá envia mais um sinal à sociedade que está num patamar superior: seja o carro maior que o vizinho, o gabinete 2 metros maior ou o dente de ouro.

Queixinhas. Poderíamos dizer também negativo. Não é pessimismo e nem sequer sentido critico, é puro queixismo. Como dizia o Lourenço Viegas, antes um tubo pelo rabo a dizer que alguma coisa vai bem na vida. Dizer mal pelo prazer de dizer mal. É uma das características que mais odeio numa pessoa, a auto-complacência à espera da compaixão alheia. Não terão a minha.

Passivo. O português queixa-se mas não faz nada por mudar. Acomoda-se e continua a queixar-se. Diz mal do carro novo do vizinho mas não pensa como pode conseguir um igual. É governado por um ditador mas não o tenta derrubar. Tem um emprego de merda mas não procura um novo. E vai olhando para a sua aparente ou real desgraça como se de uma fatalidade se tratasse.

Medroso. Não se fazem as coisas por aquilo que pode correr mal. Há quem lhe chame pessimismo ou aversão ao risco, eu chamo medo. E distingo entre um corajoso e um temerário. Ninguém pede temerários, apenas corajosos. Aos medricas pode-lhes acontecer duas coisas: nada ou borrar-se nas calças. Mais tipicamente acontece o primeiro e obviamente quando nada se faz nada acontece. E virá alguém dizer: também não acontece nada de mau. Ao que eu respondo: o problema é que não acontece nada de bom. E um tipo corajoso sabe avaliar quando é que as probabilidades de acontecer algo negativo são demasiado altas para arriscar o pelo.

Naturalmente que os portugueses têm imensos aspectos positivos, mas estes quatro representam um forte lastro que têm, em minha opinião, atrasado o país de forma considerável.

As boas notícias é que estes aspectos são reversíveis, pelo menos na opinião do optimista que eu reconheço que sou. Como? Chama-se educação. É possível educar as nossas crianças a ter uma atitude positiva, pró-activa e corajosa. E se nas escolas se perder a fleuma e se criar uma relação de maior proximidade entre professores e alunos também estaremos a ajudar a remover o sistema de classes.

Enquanto isso não acontecer eu não vejo possível reverter um ambiente económico e social depressivo onde dificilmente as empresas podem ser competitivas. Porque as empresas são, em última análise, pessoas. E quando entramos no ciclo vicioso da queixa, atitude passiva, medo dificilmente se consegue transformá-lo num ciclo virtuoso. Individualmente é possível, basta querer e tentar. Mas a nível de uma sociedade é complexo.

Fica a reflexão.

Tuesday, December 2, 2008

Uma questão de timing

Problemas de timing. Como é que eu me esqueci desta personagem no meu post anterior? Segundos depois de o escrever li esta obra de arte. Este senhor é muito mais criativo que eu. I rest my case!

Fechemos a loja

Não sou psicólogo nem aspiro a sê-lo mas esta semana algumas leituras jornalísticas e outras discussões na blogosfera deixaram-me a pensar sobre a forma de retratar o perfil psicológico do país. Quando falo do país falo das pessoas que o ocupam e, naturalmente, corro o risco de generalizar mas seria fastidioso estar a analisar o perfil de cada um dos cidadãos. Facilitismo? Talvez… Mas esta reflexão exige mais tempo, talvez para o próximo post, talvez para a próxima semana.

O tiro de partida para esta reflexão foi dado por uma série de artigos de opinião que têm sido publicados em jornais que considero de referência e blogs de gente que julgo competente. Esta gente retrata aquilo que eu vejo como próximo do apocalipse. Estando eu a menos de um mês de visitar a terra mátria (crédito para o Pe. António Vieira por esta), fico a pensar no cenário de caos e terror que me espera.

Eis o Portugal pelas lentes de um emigrante.

Começamos pela crise que não vai deixar pedra sobre pedra. Os bancos vão desaparecer, o crédito vai deixar de existir e a única boa notícia é que deixamos de ouvir o Paulo Portas pedir todos os dias a demissão do governador do Banco de Portugal.

As escolas são hoje uma espécie de fusão das favelas da Rocinha e da Babilónia num terço do espaço. Os professores agridem ministros e os alunos batem nos professores. Espera aí, não devia ser ao contrário? Está mal. Os professores deveriam ser autorizados a andar armados, a velha regra do oeste reduziria de uma assentada o insucesso e o abandono escolares porque eliminaria essa escória que pulula nas escolas. Por escória entendamos os alunos, claro!

O governo é autoritário, autista, incompetente, uma besta portanto. E vai à frente das sondagens, o que só deixa claro que os portugueses são incompetentes para escolher quem os governa. Esta teoria credito-a à Manuela Ferreira Leite mas há várias almas por aí que pensam o mesmo mas não o dizem. Infelizmente a ideia da MFL não é nova e já foi testada noutros países, conheço os casos da Coreia do Sul e de Singapura. Mas nós não somos asiáticos. Que chatice!

Por falar em MFL, o principal partido da oposição (de momento) está em risco de extinção. Pelo menos desde há um ano ao que parece, o que indica uma extinção lenta, assim como a do sol. O verdadeira caos político.

A saúde vai de mal a pior. Os hospitais portugueses são piores que tendas hospital em tempo de guerra. Como tal a solução é acabarmos com o SNS e irmos todos para o privado. Claro que quem propõe isto não tem dois dedos de testa para se lembrar de deitar uma olhada aos Estados Unidos e ver no que essa aventura pode resultar. Mas porque raio é que o SNS não funciona como os sistemas de saúde dos suecos e dos noruegueses? Se calhar porque não somos suecos. Ou seja, nem asiáticos, nem suecos.

Acho que aí está o nosso problema. O problema do país é que é habitado por portugueses. Se ainda fossem suecos, ou coreanos. Ou talvez mesmo espanhóis. Heresia! Parece que o presidente das Ilhas Maldivas está à procura de um pedaço de terra para onde mudar a nação quando o nível das águas do mar submergir o arquipélago. Não é tanga!

Eis a minha solução. Com os dotes de vendedor que o Sócrates já demonstrou a vender o Magalhães (nunca o nome da família apareceu tanto nos jornais), façam-no promotor imobiliário, mandem-no para o Índico e verão que ele conseguirá vender a nossa terrinha ao melhor preço. Haverá forma mais honrosa de fechar o tasco do que passá-lo a uma nova gerência?

Friday, November 7, 2008

Saindo da letargia

A inspiração não escolhe lugar, tempo ou contexto. Eu, como artista de blog que sou, sofro desse problema e é assim que o Caipirau entra em longos períodos de hibernção. Tal como este último.

Para quem lê o blog e não conhece o verdadeiro artista poderia pensar que eu tinha sido engolido pelas areias brasileiras. Não foi o caso, os restantes dias das viagens pelo Brasil ficam para outra altura. O que me traz aqui hoje, aquilo que me fez sair da hibernação, foi algo extraordinário. Foi a Politica.

E eventualmente pensam vocês que eu vou falar do preto escanzelado que finalmente conseguiu cumprir o sonho americano. Apesar de ser de assinalar a primeira vez que um preto magro chega ao poder nos Estados Unidos, eu venho falar de dois factos políticos quiçá de maior relevância e peso.

Facto 1. O Santana “Penteadinho” Lopes é candidato à Câmara de Lisboa. Ao contrário de TODOS os outros cargos que ocupou até ao momento, desta vez é para ficar. E não é para ficar só até ao fim, é para 2 mandatos. Sim! 8 anos porque ele é um homem de palavra. Portugal já pode rivalizar com a Itália na corrida pelos maiores despropósitos políticos. Que este senhor tenha a cara de pau para se apresentar à maior Câmara do pais é lá com ele. Que um partido relevante como o PSD o apoie já me parece mais triste. Minto, não é triste, é penoso. Mas o pior é que, talvez na única tirada com sentido do penteadinho, se ele não tivesse opções de ganhar não se teria feito tanto ruído, e aí está o maior problema. Que o penteadinho possa ganhar a Câmara de Lisboa é uma razão para eu continuar emigrado por vários anos. Pior que isso só a Sarah Palin a governar os Estados Unidos. Ou não...

Facto 2. Alguém mal intencionado pegou no orçamento de estado (imagino que na única cópia que o próprio PM ou o ministro das finanças guarda na mesinha de cabeceira) e mudou a lei de financiamento dos partidos para que estes pudessem lavar dinheiro à vontade em ano de eleições. Já não há respeito pelas figuras de Estado. É preciso ter lata para entrar no quarto do Sócrates a meio da noite, gamar a pen, mudar o orçamento e voltar a pôr a pen na mesinha de cabeceira. Obviamente, isto só pode ser feito porque o PM, dada a sua dedicação ao país, dorme profundamente durante as poucas horas de sono de que dispõe. Mas não é só o PM. Do comuna Jerónimo ao comandante Portas, ninguém abriu o bico. O Portas já se via a ressuscitar o famoso “Jacinto Leite Capelo Rego” a depositar os seus milhões em cash. O curioso, e isto vem a propósito do Facto nº1, é que se isto tivesse ocorrido no tempo do penteadinho a imprensa tinha-lha caído em cima (com razão). Porém, e não sei eu porque carga de água, com o Sócrates toda a gente toma a hóstia e diz Ámen quando o senhor vem dizer que foi um lapso.

Enfim, há alturas em que não tenho grande orgulho de ser tuga. Um desses momentos aconteceu recentemente quando vi o PM a vender computadores na cimeira Ibero-Americana. E poderia continuar mas acho que para primeiro post depois de tanto tempo isto já é suficiente. Estou de volta. Até breve.

Tuesday, July 1, 2008

O fenómeno da bola

Eu, que acompanho as notícias da lusolândia de longe com leituras apressadas de algum jornal diário, estou um pouco farto dessa categoria de comentadores que despreza o mundo da bola sem se calhar se aperceber que ao exteriorizar o seu desprezo estão também eles a tornar-se parte do fenómeno.

A moda não é nova e surge de cada vez que ocorre algum evento futebolístico de maior importância. Nessa altura vemos esses comentadores a clamar contra o país, o povo, os políticos, o governo, os jornalistas e os comentadores (os outros, claro!) por deixarem os problemas importantes do país para segundo plano e focarem-se no futebol. Claro que isto vem sempre com a expressão 'isto só aqui' que nem sequer é verdadeira porque nos vários países que já conheci acontece o mesmo. Excepção talvez para os Estados Unidos que não têm grandes eventos de selecção com os quais a populaça vibre.

Mas a outra piada deste fenómeno acontece quando Portugal perde, o que sempre aconteceu uma vez que nunca ganhámos nada nestas coisas do futebol de selecção. Invariavelmente, vêm os comentadores fazer todo o tipo de leituras políticas sobre o fenómeno. Desta vez era hilariante ler coisas como que foi uma humilhação para os nossos emigrantes porque perdemos contra as selecções dos que são patrões deles. Por essa leitura, sempre que ganhámos ao Luxemburgo por 6 secos infligimos uma humilhação histórica a esses patrões e os portugueses emigrantes sentir-se-ão de repente recompensados de anos de humilhação. Mas esperem aí, não são estes emigrantes que sempre elogiam os tais patrões e os países que os acolheram e permitiram que reconstruíssem a vida? Pormenores.

Pode ser da distância mas o circo político em Portugal parece-me cada vez mais ridículo, mesquinho e desalentador.

Friday, June 20, 2008

Fomos à vida

©Getty Images

Venho aqui falar da bola. Mais que nada senão, como de outras vezes, acusam-me de anti-patriota por comentar os feitos dos Boston Celtics e nada da nossa terrinha.

A verdade é que aqui em Sampa a malta torce quase toda pelas quinas. Também é verdade que a maioria torce por Portugal mais pelo Felipão, o Deco e o Pepe que por outra coisa. Mas pensem bem se isso até não é uma jogada de mestre do grande mago do marketing chamado Madaíl. Só as camisolas das quinas a mais que ele vende aqui é uma loucura de receita.

Acontece que que tanto Felipão à minha volta provocou o meu lado de treinador de bancada. E por isso pus-me a dissertar lições tácticas que aqui reproduzo:

1. Não conheço nenhuma equipa que alguma vez tenha ganho alguma coisa com um mau guarda-redes (goleiro aqui no Brasil). Se fosse novidade a gente ainda desculpa o treinador mas depois de ter dado um campeonato ao Benfica, um euro à Grécia e ter sido suplente de uma equipa que andou a lutar pela despromoção em Espanha já não há mais avisos a dar. O goleiro está desculpado, o treinador não. O terceiro da Alemanha é culpa sua (ontem foi só esse mas até ontem as asneiras foram muitas mais).

2. Também não foi por falta de aviso que a Alemanha resolveu explorar a ala esquerda portuguesa, se bem que ontem a direita não esteve melhor. Depois de ter mostrado que nem contra a Suíça era capaz de fazer uma exibição decente, o PF conseguiu ontem fazer pior e ser culpado directo em dois golos alemães. No 1º pode acusar-se o Bosingwa de ingenuidade por não fazer um 'chega lá' ao centrador mas ninguém pode entrar ao 1º poste com essa leveza. No 2º o empurrão não é diferente dos milhares de empurrões na área que sofrem defesas e atacantes em todas as bolas paradas. Também não foi por falta de aviso porque o PF vinha fazendo asneiro desde o 1º jogo (a Turquia só atacou pelo lado direito, a República Checa idem, a Suíça idem). Fica também por saber porque se levou o Jorge Ribeiro ao euro.

3. Pior ainda (porque nos pontos anteriores sempre há quem diga que não temos melhor, o que eu contesto), fica a questão das bolas paradas. No dia anterior tinha ouvido o Felipão a dizer que o grande problema dele era a altura dos jogadores alemães. Aliás, eu que sou um mega sarcástico achei até ofensivo quando ele se referiu aos jogadores portugueses como 'na minha equipa é tudo 1m15, 1m20'. Ou seja, o treinador sabia do problema. Pergunta: se eles são todos altos e nós quase (importantíssimo o QUASE) todos baixos, porque é que insistimos em defender as bolas paradas em homem a homem? Objectivamente, Portugal tinha 5 jogadores em campo com altura razoável (os centrais, PF, CR7 e o Gomes) para quase todos os alemães. Não existe nenhuma combinação de pares que pudesse equilibrar a equação. Ou seja, qualquer defesa homem a homem deixa sempre, no mínimo, 5 alemães em clara vantagem física. Novamente a pergunta: porquê insistir no homem a homem? Também esta variável não veio sem aviso porque Portugal sofreu contra a República Checa e contra a Turquia do mesmo mal e tem vindo a sofrer desse mal há algum tempo. Por curiosidade, lembram-se da selecção do Humberto Coelho ter sofrido tanto com as bolas paradas? E tirando a fase final do Euro Portugal jogava com o Sá Pinto no ataque, que não era exactamente um gigante, e em campo tinha apenas 3 jogadores com alguma altura (centrais e o grande AX).

Portanto, acho que perceberam que aqui o treinador de bancada põe parte da culpa (eu diria um 60%) no treinador. Os jogadores é que jogam e por isso têm parte da culpa mas o treinador é que prepara os jogadores e há erros de palmatória que vêm de longe. Sobretudo quando 2 dos golos em contra vêm de bola parada (ainda hoje me lembro da escassez de faltas no meio campo defensivo do Porto do Mourinho, isso também se treina) e por falhas de marcação.

Wednesday, June 18, 2008

Sobre a politiquice interna

Todos os dias de manhã, na caminhada que faço entre casa e o trabalho, esboço sempre um sorriso quando de repente passo pela rua Jorge Coelho e, logo de seguida, pela Jerónimo Sousa (Jerônimo aqui). Todos os dias fico à espera de ver aparecer a rua Francisco Louçã a qualquer esquina mas nada.

Estava eu a pensar nisso quando hoje lia uma notícia no jornal sobre a proposta do PCP de '7 medidas urgentes' para enfrentar a crise. A vantagem de se ser emigrante é que ganhamos o distanciamento necessário para analisar estas propostas de uma forma mais imparcial. Talvez porque os resultados das mesmas me afectem pouco (aliás, só mesmo efeito emocional indirecto por via da família e amigos). A notícia mereceria considerações mais genéricas sobre a política caseira mas fica isso para outro dia. Por agora a proposta merece comentários específicos. Então as 7 medidas são:

1. Limite de preços de bens essenciais
2. Orientação à CGD para praticar um spread máximo de 0,5 no crédito habitação
3. Subida do salário mínimo e aumento dos salários dos funcionários públicos
4. Subida de 4% das pensões mais baixas
5. Congelamento dos preços dos títulos de transporte
6. Utilização de gasóleo profissional nos transportes públicos
7. Imposto especial sobre os lucros das petrolíferas


Portanto, 6 medidas de gasto e 1 medida de colecta, que não vejo jeitos de cobrir as restantes 6 (talvez esteja a fazer mal as contas). Imagino que, nas visionárias cabeças dos proponentes, as 7 medidas podem ser compaginadas com a manutenção do défice público nos níveis actuais. Mas para o comum (e ignorante diria eu) dos mortais, sempre seria de agradecer que o explicassem como. Também seria bom que algum iluminado me explicasse porque raio impor mais um imposto sobre as petrolíferas iria aliviar a factura da gasolina do cidadão comum, porque na minha cabeça só consigo imaginar as empresas a transpor o imposto para o preço final ao consumidor. Mas eu gosto sobretudo da medida 2. Depois de todos andarem a bater no governo e no PSD por supostamente andarem a dividir pelouros nos principais bancos do país com gravíssimas consequências (e são de facto graves essas ingerências num mercado que se quer concorrencial) vamos lá propor agora umas 'orientações' à CGD. Do tipo 'olhe eu nem me quero ingerir na gestão do banco mas se amanhã esse spread não estiver baixinho o senhor vai prá rua'. Coerência acima de tudo.

Eu nem deveria estar a bater tanto nisto porque do PCP não se deveria esperar outro tipo de proposta. Pelo menos nalguma coisa são consequentes: o Estado a controlar todos os aspectos da vida do cidadão. Hoje são os preços dos alimentos, da gasolina e da habitação, amanhã o da electricidade, depois o dos automóveis e no final o melhor é nacionalizar tudo porque o capital é incompetente para gerir o que quer que seja.

O mais grave é que amanhã virá o PP, depois o PSD, depois o BE e só não vem o PS porque agora está no governo. E todos eles irão propor medidas semelhantes, talvez não tão disparatadas quanto as do PCP (que nesse aspecto tem consistentemente levado a palma nos últimos anos) mas igualmente irrealizáveis e ridículas.

Eu não sei se o povo é estúpido mas pelo menos crédulo é porque continua a ir às urnas votar nestes senhores.